quarta-feira, 2 de março de 2022

A CRUZ DE CRISTO

 “Andarias com a arma que matou teu irmão pendurada ao pescoço?”, perguntou-me uma vez uma Testemunha de Jeová quando eu tinha uns 17 anos. Na altura não soube responder, era extremamente ignorante sobre a religião católica, mas bem no fundo algo me dizia que a “cruz”, símbolo dos cristãos, deveria ter uma razão sublime de existir. Os argumentos que essa Testemunha de Jeová explanou não conseguiram abalar essa certeza e a pergunta ficou suspensa, senti uma grande necessidade de encontrar a resposta, não para quem a fez, mas para mim:

Que deveria ter dito naquela altura? O que, para mim, simboliza a Cruz de Cristo?

Poderia dizer que já sei a resposta, e sei, mas sei com a cabeça e não com o coração, acho que se abrangesse com o coração a verdadeira razão da Paixão de Cristo, não suportaria o peso dos meus pecados e não só, não suportaria a “onda de choque” causada pelo amor que Jesus tem por mim, apesar de ter pecados e exatamente por os ter.

Pecar, é construir um abismo entre mim e o amor de Jesus. Sempre que faço algo errado “por pensamentos, atos ou palavras” me afasto do Seu amor. Se me arrependo e procuro o Sacramento da Confissão, Jesus cria uma ponte sobre esse abismo para que eu tome a iniciativa de transpor. A Paixão de Jesus, na minha visão limitada e sem conhecimentos de teologia, é o grande feito visível do amor de Deus, Ele necessitou dos tormentos sofridos por Seu filho para criar pontes sobre os vários abismos concebidos pelos homens. Mas não podemos esquecer: esses abismos não deixam de existir, a ponte só pode ser percorrida por nós e quanto maior o abismo, maior é a ponte e maior é a caminhada.


O Espírito Santo quer que todos nós façamos essa travessia, por isso, ao longo da nossa vida nos envia sinais para nos ajudar, às vezes através de uma suave brisa, como aconteceu com Elias (1 Reis 19: 12, 13), ou através de acontecimentos do nosso cotidiano como a pergunta que a Testemunha de Jeová me fez ou então com a vivência que tive ao ver o filme “A Paixão de Cristo” de Mel Gibson, na cena da flagelação, cruel e sangrenta, mas dolorosamente marcante, vendo o chicote bater violentamente em Jesus e arrancar um pedaço da Sua carne, eu fechei os olhos, não fui capaz de ver e senti uma voz dentro de mim que me perguntou: “Não tens coragem de ver os teus pecados?”, foram eles que feriram a Sua carne e Ele se deixou flagelar e crucificar por Amor a mim e por todos nós.

A questão, que me foi feita, me acompanha até hoje e continuo procurando a resposta mais acertada, e de uma das meditações que fiz, surgiu a história que escrevi de nome “Ousadia do Amor”, onde transcrevo este pequeno trecho: “O coração da pequena planta se encheu de compaixão. Primeiro por aquilo que ouviu d’Ele. Ele pediu perdão para essa gente que O injuriava, pediu perdão ao Pai. Ela não compreendia, mas essas palavras lhe causaram uma sensação estranha. Elas irradiavam bondade, paciência, compreensão, ... AMOR. Sim, um grande amor, tanto pelo povo, como pelo Seu Pai. Depois as palavras das pessoas lhe elucidaram a razão porque Ele estava sendo crucificado. Ele era o eleito, um Rei. Sim, ela conseguia ver toda a Sua dignidade real, apesar de estar tão flagelado. Sentiu-se cativada por esse Rei e não mais tirou o olhar d’Ele.”.

 


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