quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

TESTEMUNHO VOCACIONAL DE UM “SOLDADO DE CRISTO”

“Soldado de Cristo”, esta expressão entranhou no meu ser aquando me preparava para o Crisma. Um compromisso que deveria levar a sério e ser uma bandeira de vida, vida de fé que estava para assumir, talvez por ter vivido num regime militar e ter aprendido a respeitar, amar e lutar pela pátria, só que essa pátria era outra, muito mais nobre e autêntica.

Procurei o meu lugar nesse “exército” de cristãos, mas não encontrei vaga, achei que essas dificuldades existiam para me levar ao caminho certo, mas não sabia qual. Apesar dessa constante caminhada de fé que tão recentemente iniciei, vi o meu mundo físico e anímico desmoronar ao meu redor. Não poderia ter acontecido numa altura mais perfeita, foi essa caminhada que me fez sublimar todas as dificuldades que tive de enfrentar. Foi como se fosse um teste de admissão, para ver se estava apta para vestir a “armadura” e empunhar a “espada”. 

Não foi fácil, tinha 25 anos quando comecei a dar os primeiros passos, aos 27 anos recebi o Crisma, era tudo tão rápido e ao mesmo tempo tão intenso. Senti-me perdida e procurei ajuda e por intermédio de Maria roguei ao Espírito Santo que me indicasse o caminho que deveria escolher. A resposta foi tão rápida como a minha caminhada espiritual. De joelhos pedi a ajuda e quando me levantei e saí do Santuário tinha à porta um convite para um encontro vocacional. 

Na nossa vida de “Soldados de Cristo” temos três caminhos a seguir: pelo sacramento do matrimónio, solteiros no mundo ou religioso.

O encontro vocacional foi totalmente diferente do que imaginei, percebi que todo ele era feito para uma jovem que estava indecisa, eu, pelo que pareceu, só estava ali para lhe fazer companhia e assim me posicionei, mas o Espírito Santo tinha outros planos. 

Apaixonei-me.

Meu coração batia fortemente, as palavras eram absorvidas com sofreguidão e uma sensação de irrealidade, como se o meu antigo “eu” tivesse saído do meu corpo e um novo “eu” tivesse tomado posse da minha vontade. Que sensação maravilhosa! 

O que vivenciei nesse encontro vocacional é o que São Marcos narra: «Então Jesus parou e disse: 'Chamai-o'. Eles o chamaram e disseram: 'Coragem, levanta-te, Jesus te chama!' O cego jogou o manto, deu um pulo e foi até Jesus. Então Jesus lhe perguntou: 'O que queres que eu te faça?' O cego respondeu: 'Mestre, que eu veja!' Jesus disse: 'Vai, a tua fé te curou'. No mesmo instante, ele recuperou a vista e seguia Jesus pelo caminho.» (Marcos 10:49-52) 

Ao longo da minha vida de religiosa, várias vezes a “cegueira” obscurecia o meu entendimento, outras vezes era muito difícil desprender-me do manto ou mesmo levantar, mas o batimento do meu coração lembrava a paixão que me fez segui-Lo, porque não era só o batimento de um coração, mas de dois, pois o Espírito Santo, habita em mim. 

Há cerca de 25 anos que a minha caminhada como religiosa terminou. As dificuldades eram muitas, talvez demais para quem “não tinha vivência religiosa na infância”, como disse uma Irmã para me convencer a sair, outra disse que a minha vocação era temporária, não sei se isso existe. Não aceitei muito bem esse doloroso final. O que sei, é que ainda hoje sinto dois batimentos no meu peito e tenho uma certeza, se nesta vida não consegui ser um bom “Soldado de Cristo”, sei que, quando fizer a passagem, estará Jesus a minha espera e me oferecerá a “armadura” e a “espada” para pertencer a Sua Legião Celestial. Ámen

Nenhum comentário: